Pressão dos Amigos

Quando somos crianças os nossos pais acabam por, de certa forma, escolher a maior parte dos nossos amigos e são eles que combinam os nossos encontros com amigos. Agora já decidimos quem são os nossos amigos e com que grupos queremos passar o nosso tempo. E, inevitavelmente, os amigos que escolhemos acabam por influenciar as nossas opções, o que pensamos e o que fazemos.

À medida que crescemos vamos passando cada vez menos tempo com a nossa família e cada vez mais tempo com os nossos amigos (às vezes até sentimos que eles são a nossa família!). Por isso, os amigos vão ocupando um papel cada vez maior na nossa vida e nas nossas decisões. Acabamos por nos identificar e comparar com os nossos amigos. Eles influenciam aquilo que queremos ser, o que queremos atingir, o que fazemos, a forma como nos vestimos ou as atividades em que nos envolvemos.

A influência que os nossos amigos têm em nós é normal e, muitas vezes, é boa. Ter um amigo que tem boas notas ou que é muito bom num desporto pode ajudar-nos a ter e a atingir também esses objetivos. Amigos que são leais e tolerantes ajudam-nos a construir essas qualidades. Os amigos ouvem-nos e dão-nos feedback quando tentamos realizar as nossas ideias ou discutir os nossos problemas. Podem ajudar-nos a tomar decisões (que disciplina escolher, se devemos pintar ou não o cabelo, como lidar com uma discussão com os nossos pais). Os amigos ajudam-nos a desenvolver competências sociais – como fazer novos amigos, como respeitar as diferenças entre as pessoas, como concordar ou discordar de alguém, competir ou trabalhar em equipa. Os amigos encorajam-nos a ir àquela audição ou a experimentar coisas novas, apoiam-nos quando nos sentimos tristes ou zangados.

Mas, às vezes, são os nossos amigos a causarem-nos problemas. Podem dar-nos maus exemplos, maus conselhos ou pressionar-nos a fazer alguma coisa com a qual não nos sentimos confortáveis (por exemplo, roubar, consumir álcool ou drogas, correr riscos a conduzir ou ter relações sexuais sem estarmos preparados).

Esta pressão pode ser direta (por exemplo, “vá, anda lá, é só mais uma cerveja, está toda a gente a beber”) ou indireta (por exemplo, simplesmente disponibilizar muita cerveja numa festa). Nem sempre a pressão que os amigos exercem sobre nós é fácil de definir. Às vezes são sinais subtis que o grupo de amigos nos dá, sem nos dizer nada, mas pelos quais percebemos que nos devemos vestir ou falar de determinada maneira, ou adotar determinadas atitudes face à escola ou aos colegas e professores, para conseguirmos a sua aceitação e aprovação.

A pressão para nos conformarmos (fazermos o que os outros fazem) pode ser muito poderosa e difícil de resistir. A pressão dos amigos pode levar-nos a fazer coisas que não têm importância nenhuma, mas também nos podem levar a fazer coisas com consequências sérias e até ilegais.

Sentimo-nos pressionados a fazer o que ou como os outros fazem porque queremos ser aceites, não nos queremos sentir “os esquisitos”, “os diferentes” ou desconfortáveis. Porque nos sentimos inseguros, porque somos novos no grupo, porque não sabemos como resistir à pressão dos amigos. Às vezes é mais fácil pensar “bem, não deve haver problema, se os outros também estão a fazer…”. E de repente estamos a fazer algo que nunca pensámos fazer ou com que não concordamos realmente.

Na verdade, quase toda a gente acaba por sofrer a pressão dos amigos e ver-se numa situação menos boa. Mas estas situações também podem ser oportunidades para pensarmos o que é melhor para nós e para encontrarmos formas de resistir à pressão dos amigos.

Não há nenhuma fórmula mágica para resistir à pressão dos amigos. É preciso coragem. É preciso ter coragem para:

  • Ouvir os nossos instintos. Se nos sentimos desconfortáveis com determinada ideia, mesmo que os nossos amigos pareçam todos de acordo, isso significa que há algo na situação que está errado para nós e isso deve ser o suficiente para nos deixar mais atentos à decisão que vamos tomar e confiarmos em nós.
  • Analisar a situação e as suas consequências. Perante determinada situação em que nos sentimos pressionados devemos tentar analisar o que se passa (onde estamos? Com quem estamos? O que se está a fazer? Como nos sentimos perante isso? Posso sair fisicamente magoado? Alguém se pode magoar? É contra a lei? Quais são os efeitos a longo prazo na minha vida, nas minhas relações com os outros?) e as consequências que podem advir de uma má decisão (como me vou sentir amanhã? Posso meter-me em sarilhos com os meus pais/na escola/com a justiça?). A resposta a estas perguntas ajudar-nos-á a decidir.
  • Planear estratégias para possíveis situações de pressão. Por exemplo, se vamos a uma festa e sabemos que nos vão oferecer álcool e drogas, devemos pensar antecipadamente como vamos reagir. Decidir o que vamos fazer e dizer e até ensaiá-lo em frente ao espelho, aprender alguns “truques”. Por exemplo, se estivermos a segurar uma água ou um refrigerante é menos provável que nos ofereçam uma bebida que não queremos. Ou podemos simplesmente ir fazer outra coisa (ir à casa de banho ou fazer uma chamada).
  • Evitar situações em que já sabemos que seremos pressionados. Por exemplo, se os amigos com quem jogamos futebol se querem encontrar no parque para fumar uns charros antes do jogo, podemos dizer-lhes que já temos coisas para fazer e que nos vemos à hora do jogo. Se os nossos amigos vão passar um tempo em casa de alguém antes de irem para discoteca, sem pais por perto, e desconfiamos que as coisas podem não correr bem, podemos sugerir comer qualquer coisa num restaurante ou dizer que aparecemos só na discoteca.
  • Aprender a dizer “não” e sentirmo-nos confortáveis com isso. Entre amigos não devíamos ter de dar explicações ou desculpas. Mas quando sentimos que precisamos de utilizar uma desculpa para recusar alguma coisa, podemos ter algumas em mente. Por exemplo, “Não, obrigada, tenho um teste para subir de cinto no karaté amanhã” ou “Não, o meu Tio morreu a semana passada com uma cirrose e eu nem quero ouvir falar de álcool”.
  • Ser assertivo. Defender o que está certo e termos orgulho nisso. Se alguém nos quer convencer a fazer alguma coisa que sabemos que não devemos fazer ou que nos deixa nervosos, devemos dizer “não”. E ter orgulho em sermos fortes e fazermos o que achamos melhor para nós. Olhar o outro diretamente nos olhos, e sentirmo-nos bem com as nossas escolhas. Em último caso, todos nós estamos sozinhos e devemos defender a nossa posição quando somos tentados a fazer coisas com as quais não concordamos pelos nossos amigos. As consequências do que fizermos ou não fizermos serão para nós (e não para os nossos amigos).
  • Escolher e sair com amigos que pensem da mesma forma que nós e que nos respeitem. Escolher amigos que tenham a mesma perspetiva de valores que nós, que se sintam da mesma forma que nós, pode ajudar numa situação de pressão, pois provavelmente a “pequena voz na nossa cabeça” que estamos a ouvir, eles também estarão. Para além disso, resistir à pressão é mais fácil quando já são duas pessoas a dizer “não”.
  • Pedir ajuda. Se uma situação parecer perigosa, não hesitar e pedir a ajuda de um adulto.

 

Não é fácil resistir à pressão dos amigos, mas quando o conseguimos, sentimo-nos bem connosco próprios. E até podemos inspirar outros amigos a tomar a decisão certa – às vezes basta uma pessoa para mudar uma situação e fazer a diferença.

Se não é fácil para nós resistir à pressão dos amigos, mesmo sabendo que não nos sentimos bem ou que não estamos no caminho certo; se nos sentimos pouco fortes e prestes a deixar-nos influenciar e a correr riscos desnecessários com o consumo de álcool ou drogas; ou se temos um amigo nessa situação, pode ser muito importante pedir a ajuda de um adulto ou pedir aos nossos pais para falar com um Psicólogo.