Programas de Intervenção ASE em Portugal: Avaliação e Eficácia

As referências bibliográficas referentes aos programas mencionados podem ser consultadas aqui.

Este site pretende oferecer conteúdos dinâmicos e informados de acordo com as evidências científicas mais recentes, pelo que será regularmente atualizado.

“Anos Incríveis”: intervenções do 2 aos 8 anos

Os programas Anos Incríveis foram criados nos Estados Unidos da América com o objetivo de reduzir problemas de comportamento e promover competências sociais e emocionais em crianças. A série em Portugal inclui atualmente programas dirigidos a pais e professores e têm em comum o facto de serem dinamizados em grupo, em sessões lideradas por facilitadores, nomeadamente psicólogos, com formação específica na versão do programa que implementam. Estes programas recorrem a uma abordagem colaborativa, que envolve métodos de aprendizagem ativa como o role-play, modelagem através do vídeo, atividades para desenvolver em casa e discussão no grupo.

O programa para pais pode ir de 14 (intervenções de tipo preventivo com populações de baixo risco) a 20 sessões semanais (forma de tratamento para pais de crianças com problemas identificados ou famílias em elevado risco social) e os grupos incluem um máximo de 12 participantes. O programa para professores consiste em 6 workshops mensais com a duração de um dia cada, em grupos de 14 a 15 professores/educadores.

Os resultados encontrados no contexto nacional demonstram a transportabilidade dos programas. O programa para pais mostrou-se eficaz na promoção de competências sociais e emocionais de crianças em risco de desenvolver problemas de comportamento de tipo disruptivo e na prevenção da deterioração de tais competências com a idade. O programa para professores revelou ser eficaz na promoção de competências sociais e emocionais de crianças no jardim-de-infância, quando implementado como forma de intervenção universal e demonstrou ser uma mais-valia a curto prazo, quando associado ao programa para pais de crianças em risco clínico.

 

“Salto de Gigante” – transição do Pré-Escolar para o 1º ano de escolaridade

O Salto de Gigante é um programa universal de origem Portuguesa que visa desenvolver competências sociais e emocionais e melhorar a adaptação escolar das crianças em transição do pré-escolar para o primeiro ano. Integra duas versões, uma dirigida ao pré-escolar com 15 sessões de 45-60 minutos e outra ao primeiro ano de escolaridade com 18 sessões de 60 minutos, implementadas semanalmente. As atividades incluem apresentação de vídeos didáticos especialmente concebidos para o programa, relato de histórias, jogos pedagógicos de grupo, role-playing e atividades de expressão artística e contam com a utilização de estratégias de brainstorming, modelagem, feedback construtivo, reforço positivo individual e reflexão/ discussão em grupo.

Os resultados sugerem efeitos positivos na melhoria das forças interpessoais, no conhecimento emocional, no funcionamento escolar e no alargamento da perceção da rede de apoio social em contexto escolar em crianças no pré-escolar. Indica ainda melhorias em crianças do 1º ano na relação entre pares, no comportamento académico, nas competências sociais, na adaptação escolar e em particular na adaptação comportamental avaliada pelos professores, no conhecimento emocional, nas aptidões de aprendizagem escolar e no alargamento da perceção da rede e satisfação com o apoio social em contexto escolar avaliadas pelas crianças.

 

“Mind-Up” – práticas de Mindfulness no 1º ciclo (3º ano)

O programa Mind-Up tem origem norte-americana e visa desenvolver competências sociais e emocionais, baseadas em práticas de mindfulness centradas na consciência da atenção e incluindo também práticas de gratidão e atos de bondade. Na sua versão original está organizado em três níveis: pré-escolar ao 2º ano, 3º ano ao 5º ano, 6º ano ao 8º ano, mas em Portugal a adaptação foi feita para o 3º ano de escolaridade.

A aplicação do programa tem como pré-requisito a formação inicial dos professores com a duração de 50 horas (25h em sala com um psicólogo com formação para o efeito e 25h de trabalho autónomo). É feito um acompanhamento/monitorização do programa através de visitas às salas de aula, por um consultor do programa. A prática principal de mindfulness foi introduzida numa base diária no início da manhã, a seguir ao intervalo do almoço e, quando possível, antes do término das aulas.

Relativamente aos efeitos do programa nos alunos os resultados revelaram uma melhoria nos afetos negativos. No que diz respeito à autocompaixão os alunos mostraram-se menos autocríticos.

 

“Devagar se vai ao longe” – 1º ciclo (4º ano)

“Devagar se vai ao Longe” é um programa universal de origem Portuguesa que visa promover competências sociais e emocionais e o desempenho académico, assim como diminuir os problemas de comportamento e emocionais em crianças do 4º ano de escolaridade. Consiste em 21 sessões semanais de 45-60 minutos cada, implementadas por psicólogos escolares, na presença de professores. As técnicas e estratégias utilizadas incluem instrução didática através de método expositivo, posters, leitura de histórias, brainstorming acerca de estratégias mais eficientes a utilizar, modelagem, roleplaying, feedback construtivo, autorreforço, reforço social e dinâmicas de grupo.

Os principais resultados relativamente à avaliação da eficácia do programa evidenciaram uma melhoria nas competências sociais e emocionais e no desempenho académico, assim como na redução de problemas de comportamento.

 

 “Viver as Emoções” – dança educacional – 2º e 3º ciclos

O Programa “Viver as Emoções” é uma intervenção universal de origem Portuguesa destinada a alunos dos 2º e 3º ciclos e desenvolvida extracurricularmente com jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 14 anos de idade. O programa é constituído por 12 sessões de uma hora, distribuídas por três módulos e inclui conteúdos multiculturais. A metodologia de aprendizagem adotada integra a ação e a reflexão, ou seja, o treino de competências através das atividades de dança educacional e a transmissão de conhecimentos mediante a reflexão em grupo.

Os resultados encontrados permitem concluir que o programa assume relevância social e validade, além de ter demonstrado efeitos positivos nas competências sociais e emocionais de autorregulação e relacionais dos alunos. As atividades de dança educacional podem constituir ferramentas apropriadas à promoção de competências sociais e emocionais nas escolas, em particular no período extracurricular, indo ao encontro do interesse e satisfação dos alunos.

 

“Atitude Positiva” – 4º ao 9º ano de escolaridade

O projeto “Atitude Positiva” integra um conjunto de programas de origem Portuguesa, concebidos para intervir no 4º ano, 2ºciclo e 3º ciclo, incluindo também um programa de ajustamento escolar na transição para o 2º ciclo. O projeto visa a promoção de comportamentos saudáveis e a prevenção de comportamentos de risco em crianças e adolescentes do 4º ao 9º ano de escolaridade e é implementado por psicólogos (Coelho, Sousa & Marchante, 2016).

O programa do 4º ano é composto por 13 sessões semanais de um tempo letivo (45 minutos); o programa Transição Positiva, focado na transição do 4º para o 5º ano, é composto por 20 sessões de 45 minutos semanais ou bissemanais (15 sessões no 4º ano e 5 sessões no 5º ano); o programa do 2º ciclo integra 15 sessões; e o programa de 3º ciclo é constituído por 13 sessões semanais de 45 minutos.

Na generalidade os resultados observados revelaram um impacto positivo no 1º, 2º e 3º ciclos em várias competências sociais e emocionais, com destaque para o autocontrolo, consciência social e autoestima. As intervenções precoces tendem a evidenciar resultados mais expressivos.

 

Algumas condições para a implementação dos programas de intervenção ASE:

  • É essencial prestar atenção à qualidade da intervenção e à forma como é implementada, para além da intervenção baseada em evidências empíricas relativamente à sua eficácia.
  • As abordagens escolares parecem mais eficazes quando incluem uma perspetiva de “escola inteira”. Os novos programas devem ser integrados nos já existentes e devem ser encorajadas parcerias de trabalho em rede com estruturas dentro da comunidade.
  • Os programas devem ter validade social, isto é, que os seus objetivos, procedimentos e resultados respondam às exigências das escolas, que façam sentido para os professores, que sejam aceites pelos alunos e que se ajustem ao currículo existente.